O Mistério do Tempo Perdido – Parte 1
A primeira vez que ele
notou que algo muito estranho estava acontecendo foi depois de um almoço, num
restaurante novo anunciado em seu Facebook.
Antes ele já tinha, em
alguns momentos, vivenciado situações desconfortáveis, demora para definir
objetivos, um certo grau de dificuldade para cumprir prazos, mas não havia dado
muito importância a estas dificuldades. Não era um bom gestor de seu tempo mas
era esforçado e dedicado e tudo lhe parecia insignificante e passageiro. Qualquer
dificuldade aos poucos era superada.
Naquele dia, foi
diferente. Ele recebera a propaganda do novo restaurante e sem qualquer
pesquisa ou outra referência decidiu conhecê-lo. Ficava um pouco afastado,
cerca de 2 horas. Escolheu, sem pensar muito, o pior horário do pior dia, final
de um feriadão. Chegou já tarde, pelo trânsito intenso que encarou e ainda
pegou fila na entrada do restaurante. Uma hora de espera. Como já estava lá,
resolveu esperar. Após um pouco mais de uma hora, entrou, atendimento lento, almoçou,
fila no caixa, saiu. Visita insatisfatória, demorada, cansativa.
No retorno, ao passar por
alguns ciclistas, lembrou que havia se comprometido com uma amiga a pedalar no
final da tarde. Tentou ligar para se desculpar, mas estava sem bateria no celular,
esquecera de carregar antes de sair.
Chegou em casa, tarde da
noite pois encarou outro congestionamento na volta.
Tinha se programado para usar
o início da noite para preparar diversos materiais para o trabalho no dia seguinte,
mas o atraso no seu passeio o impediu.
Dormiu inquieto, a noite lhe pareceu muito curta, amanheceu antes que pudesse se recuperar. Despreparado para as atividades da manhã, cansado, perdeu prazos, esqueceu compromissos, passou o dia inteiro sem condições normais de trabalho.
Tentou contato com a amiga para se desculpar mas não conseguiu.
Retornou para a casa com a
sensação muito ruim de que tinham lhe tirado um pedaço do seu tempo que estava
lhe fazendo falta.
No outro dia, ao final da
tarde, começou a preparar-se para uma reunião virtual no dia seguinte com gerentes
das demais filiais da empresa. Não havia recebido uma pauta da reunião então juntou
o material que achou importante, o que lhe roubou algumas horas.
A reunião prevista para iniciar às 9 horas teve participantes se inscrevendo até 9:45h e iniciou efetivamente, às 10:15h. Logo de saída, várias discussões sobre prioridades a serem tratadas na reunião, e posteriormente várias escapadas dos temas centrais, para tratar de situações específicas e de interesse de alguns participantes apenas. A reunião se prolongou até ao meio-dia com zero de efetividade, quando foi interrompida. Retorno previsto para as 13 horas. Ao se desconectar da reunião novamente a sensação ruim de que um pedaço o seu dia havia sido surripiado. Verificou que havia uma série de compromissos assumidos para a tarde e nada indicava que lhe sobraria tempo para atendê-los.
Tinha se desculpado com a amiga e remarcado para aquela noite. Sentiu que ia furar novamente.
A parte da tarde da reunião continuou improdutiva com várias discussões
intermináveis o que apenas aumentou o mal-estar e a certeza de que seu tempo
estava desaparecendo como por um passe de mágica.
E o pior ainda viria.
Continua...
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